Muito mais do que carteiras de papel

O caso da Dobra
Por Gislaine Gandra (Teal Brasil)
Entrevista realizada por Fabiano Borges, Gislaine Gandra e Mariana Jatahy

Mais do que fabricar produtos feitos de “papel” reciclável, a Dobra é um laboratório de experiências com o propósito de deixar o mundo mais aberto, irreverente e do bem. Para isso, estão ressignificando a maneira como as pessoas se relacionam com o negócio, seja do ponto de vista do funcionário, do cliente ou da comunidade.

“O principal impacto é fazer as pessoas repensarem, é espalhar esse pensamento do papel do negócio e do papel social que a Dobra tem, que não é só pagar impostos e dar empregos.”

Guilherme Massena

O produto escolhido para iniciar as atividades foi a carteira de tyvek, uma fibra sintética reciclável similar ao papel. Hoje, com 16 funcionários,  o portfólio inclui vários modelos de carteiras, quadros, porta-cartão, porta-passaporte, ecobags, camiseta e tênis. Muito mais do que vender produtos recicláveis, o propósito da Dobra é deixar o mundo mais aberto, irreverente e do bem. O produto é apenas uma ferramenta para alcançar algo maior. 

A Dobra é um laboratório de criação comunitária cujo diferencial está na maneira como o produto é co-criado com artistas do mundo todo e fabricado por pessoas da comunidade local, bem como na experiência que é oferecida aos clientes e funcionários. Para eles, o impacto social é tão importante quanto o lucro. 

Produção justa e colaborativa

Para alcançar seu propósito, Gui, Dudu e Guto acreditam que pequenas ações podem fazer muita diferença. Pensando nisso, realizam vários experimentos que vem trazendo resultados positivos para sustentar o tripé da sustentabilidade: ambiental, econômico e social. 

O processo de produção, por exemplo, tem como premissas ser colaborativo e justo com todos os envolvidos. Para isso, tanto na etapa de desenvolvimento de estampas, quanto na fabricação dos produtos, existe a participação da comunidade local e o estímulo para que pessoas de fora contribuam – independente de onde estiverem. Dessa forma, o processo promove a criação de relações e experiências positivas de troca, que, por sua vez, ajudam a espalhar a forma irreverente de fazer negócios da Dobra.

Na etapa de desenvolvimento de estampas, foi criado uma plataforma que funciona como um hub de criação comunitária. A Dobra optou por não centralizar a etapa de criação de estampas em uma equipe interna. Com tantos artistas espalhados pelo mundo, por que não criar oportunidades de expressão artística e ganhos financeiros que também tornassem os produtos da Dobra únicos? Assim, através da plataforma, artistas do mundo todo cadastram estampas autorais no site e recebem uma comissão sobre cada item vendido. A ideia é dar visibilidade para artistas anônimos, mantendo a assinatura na estampa para garantir que seus direitos autorais sejam respeitados. Hoje são mais de mil artistas engajados na plataforma. Alcides, o colaborador mais recente da Dobra, destaca o impacto que a rede tem:  “Estar aberto para muita gente nos ajuda. Esse contato com os artistas facilita muito a forma como vamos nos comunicar com as outras pessoas, porque fica uma comunicação de pessoa para pessoa. Não centralizados as criações, não temos a prepotência de achar que seremos os melhores artistas do mundo.”  

Outro experimento da Dobra tem a ver com a relação com as pessoas que moram nas redondezas de Montenegro. A oscilação de volume dos pedidos de clientes inviabiliza entregas rápidas quando o volume é muito grande. Assim, foi criada uma rede de produção colaborativa na qual a comunidade ajuda nas etapas de dobragem e costura. Cada pessoa define quantos produtos vai produzir e quando vai colaborar, conforme sua disponibilidade de tempo. Dessa forma, com apoio das pessoas da comunidade, a Dobra consegue produzir o que no processo rotineiro, apenas com os funcionários próprios, não conseguiria: ampliar a produção e entregar ao cliente mesmo quando recebe pedidos grandes. Além disso, esta rede cria oportunidade para as pessoas se conectarem com a experiência Dobra e terem remuneração por produção justa e diferenciada. 

“Quem tem tempo livre ou quer fazer uma renda extra pode plugar na Dobra. Fazemos a impressão do material e o corte. Entregamos para essas pessoas os produtos para serem acabados. A pessoa pode costurar em casa, pode dobrar as carteiras ou qualquer produto. Todos os nossos produtos podem ser acabados fora da Dobra. Essas pessoas são as próprias guardiãs da cultura. Se sairmos agora, a empresa continua da mesma forma.”

Destaca Dudu

Retorno para a sociedade e cuidado com o meio ambiente

A Dobra também está consciente da sua responsabilidade social. Neste momento de pandemia, além de manter a remuneração dos funcionários durante os meses em que ficaram parados, as pessoas da rede de produção também foram consideradas nas ações. Durante quase dois meses, a Dobra não teve nenhuma produção devido ao protocolo de distanciamento social. Para reduzir o impacto na renda destas pessoas que ficaram sem produtos para dobrar e costurar, foi combinado que durante três meses, cada pessoa iria receber metade da renda que teve com a Dobra nos últimos meses, como garantia de recebimento mínimo. Para retribuir o que a Dobra estava fazendo, as pessoas da rede de produção se envolveram em projetos voluntários para produção de máscaras, jalecos e aventais, encaminhados para os hospitais da região. 

Outros dois programas reforçam as ações sociais. O Programa Dobra +1 foi uma forma que encontraram para devolver à sociedade um pouco do que a empresa gera de lucro. Um real de cada produto vendido é destinado para um projeto social sediado no Rio Grande do Sul, fomentando ações de impacto nas comunidades locais mais próximas. A Black Friday da Dobra também é diferenciada. Chamada de Give Back Friday, o cliente só ganha o desconto na sua compra se doar antes algum valor para projetos sociais. Durante 24 horas, o cliente que doar qualquer quantia, ganha uma carteira de graça. Em 2020, foram mais de R$63.000 em doações. Para Guto, essas ações da Dobra “são ações simples e de fácil operação que poderiam ser disseminadas por grandes empresas, o que traria um grande impacto social. Sabemos que tem mais empresas que fazem isso, mas queremos que isso se torne popular”.  

No aspecto ambiental, desde o início da empresa, os resíduos gerados durante o processo de produção são encaminhados para reciclagem. Com o aumento das vendas, criaram o Programa de Reciclagem que busca incentivar o consumo consciente e a redução de resíduos. Utilizam-se da logística reversa para que os clientes devolvam as carteiras usadas que iriam para o lixo e possam ser redirecionadas para a reciclagem. Para incentivar a participação, cada carteira devolvida garante 20% de desconto na próxima compra. As embalagens para envio dos produtos também podem ser reutilizadas pelos clientes, se transformando em cofre, porta copos e tapetes. Há mais de dois anos que adotaram o cartão semente biodegradável para as comunicações carinhosas com os clientes, como mais uma forma de gerar equilíbrio ambiental e financeiro. 

Autogestão para liberdade, colaboração e responsabilidade

A Dobra é uma empresa humana, aberta e transparente, tanto com a sociedade quanto com os funcionários. Esse jeito de ser se reflete no design organizacional. Encontraram na autogestão um modelo para garantir liberdade, colaboração e responsabilidade. Desde o início do negócio, o trio de fundadores definiu que não seriam e nem teriam chefes. Queriam trabalhar sem hierarquia formal por entender que, com um propósito claro, as pessoas se engajam e se responsabilizam pelas atividades, sem precisar que um chefe defina o que deve ser feito. Com irreverência, definiram o cachorro da raça pug chamado “Batman”, como o CEO da Dobra. Dessa forma, deixam claro que todos os funcionários, inclusive eles como fundadores, estão no mesmo nível hierárquico, e não devem responder a um chefe, mas colaborar com o grupo para alcançar o propósito.

Quanto à divisão de atividades, adotaram a definição de papéis. As pessoas podem atuar em um ou mais papéis na organização e experimentar coisas novas, conforme seus interesses e habilidades. Acreditam na liberdade com responsabilidade, e que cada pessoa pode organizar a sua rotina à sua maneira, como explica Alcides: “Obviamente nem todo mundo só faz o que gosta ou o que quer. Aqui as pessoas experimentam coisas novas e podem mudar de papel. A forma como é feita ou como cada um vai se organizar para fazer não importa, o que importa é que isso seja legal e que a gente receba um feedback positivo do cliente.”

Para ser fluido e melhorar continuamente a experiência oferecida ao cliente e ao funcionário, os times autogeridos são responsáveis pela evolução contínua de seus processos de trabalho. Todos são responsáveis por levantar problemas, testar soluções e levar tensões para as reuniões quando precisam de ajuda. Nestas reuniões, todos os 16 funcionários participam e mostram como foi a semana ou o mês que passou, com total transparência ao que está acontecendo no time, inclusive sobre os resultados financeiros. Os processos que requerem mudanças para gerar melhorias são comunicados e são co-criados planos para os próximos meses. Assim, todos têm conhecimento do que está acontecendo na organização, o que viabiliza que cada funcionário possa tomar as suas próprias decisões de forma autônoma considerando seu papel e o impacto que gera nos demais. 

No início da empresa, foram os fundadores e os primeiros funcionários que moldaram este processo de melhoria dos processos internos. Hoje, após quatro anos, esse processo funciona de modo mais orgânico, sem resistência. “Só conseguimos quebrar a resistência tornando isso um hábito, com todos procurando pensar em possibilidades de melhorias. Hoje, as melhorias ocorrem mesmo sem as reuniões, porque alguém que notou o problema, vai acionar as pessoas envolvidas para tentar resolver e melhorar o processo, cada vez o processo evolui mais tanto para entregar melhor para o cliente, quanto para aliviar o seu próprio trabalho e suas próprias rotinas.”, relata Dudu.

Testando práticas de remuneração

Entre as diversas experiências que vêm testando, a atual política de remuneração é uma das que tem trazido mais irreverência e aprendizados. Quando iniciaram a Dobra, o trio de fundadores convidou um amigo para trabalhar com eles. Quando começaram a ter remuneração, não viram sentido em diferenciar o salário dos fundadores para este primeiro funcionário, já que todos faziam as mesmas coisas: atendia, dobrava carteira, embalava, e encaminhava para o correio. Desde então, dos fundadores até o mais novo colaborador, todos ganham o mesmo salário. 

A adoção da remuneração equivalente para todos reforça a igualdade entre as pessoas e isola as variáveis referente a cargos e remuneração. Assim, evitam criar um ambiente onde as pessoas competem para subir de nível, trocar de cargo ou mudar de função para ganhar X reais a mais no final do mês ou para ter mais poder. Dudu explica:  “O laboratório de experimentação te permite ver que os salários iguais, eliminam a hierarquia e os cargos automaticamente, não há ninguém pior ou melhor, seja em remuneração ou qualquer outra coisa. Acreditamos que é muito mais coerente, muito mais divertido, muito mais alinhado com o valores que estamos criando de mudança, conseguirmos isolar este problema para focar nas coisas que de fato importam, ou seja, se as pessoas estão se sentindo bem, se elas estão gostando de trabalhar ou se elas estão ali por um objetivo maior do que a grana.”

Por outro lado, perceberam que este modelo tende a trazer (ou explicitar) alguns problemas, como queda de rendimento e desmotivação, como indica o Dudu: “A galera estava baixando de rendimento o que fazia com quem estava do lado pensasse, se aquela pessoa não está produzindo, não está entregando, não está a fim mais porque eu vou dar o gás aqui?.” Estas tensões trouxeram várias reflexões e a necessidade de reavaliar o modelo de remuneração. Pensaram em adotar o modelo tradicional de remuneração por cargos ou o modelo de níveis conforme produtividade. Contudo, fizeram uma pesquisa com todos os funcionários e perceberam que essa não seria a melhor saída no momento. Com a pesquisa, perceberam que a maior parte dos funcionários (85%) prefere ter a mesma remuneração. Além disso, identificaram problemas na conexão com o propósito e na comunicação que precisavam ser resolvidos antes de trocar a política de remuneração. Dessa forma, manter os salários iguais mostrou trazer mais vantagens do que desvantagens neste momento em que são ainda poucos funcionários e conseguem manter os vínculos fortes e a comunicação transparente para resolver problemas.

Reconhecimento e consciência

Com toda a irreverência, abertura e ações do bem, a Dobra tem crescido e gerado cada vez mais impacto por onde passa, realizando assim o seu propósito de deixar o mundo mais aberto, irreverente e do bem. Para Gui, “O principal impacto é fazer as pessoas repensarem, é espalhar esse pensamento do papel do negócio e do papel social que a Dobra tem, que não é só pagar impostos e dar empregos.”

Como reconhecimento de sua atuação, foi certificada como Empresa B pelo Sistema B, recebeu rating A de consciência pela Humanizadas e foi eleita uma das 10 startups mais conscientes do Brasil pelo Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Se a irreverência poderia parecer pouco respeitosa, o que vemos na Dobra é muito respeito e responsabilidade social e ambiental. 

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