Uma comunidade viva criando impacto social positivo

O caso da Base Colaborativa

Por Davi Gabriel da Silva (Teal Brasil)*

Movimentar causas sociais, estimular o empreendedorismo e o autoconhecimento são alguns dos objetivos da Base Colaborativa. Essa organização sustenta um espaço em que diversos agentes de mudança podem se reunir e trabalhar em projetos em que acreditam. Esse espaço criativo, de presença e conexão permite o surgimento de grupos auto-organizados, focados em realizar ações práticas. A Base não entrega só resultados para quem precisa, mas também transforma os seus voluntários

“Queremos as pessoas pelo que elas são, não pelas metas que bateram”

Rafael Maretti

Rafael Maretti desde cedo se reconheceu como parte de uma camada social privilegiada. A necessidade por corrigir essa injustiça o levou à escola de Direito, onde estudou para se tornar advogado. Nessa busca por um mundo mais coerente, decidiu iniciar um clube cultural com amigos por volta de 2010. O propósito desse “espaço cultural de consciência” era estudar, questionar e aprender coisas para mudar o país. Mal podia ele imaginar que esse clube se tornaria a Base Colaborativa, uma comunidade que hoje reúne associados e voluntários atuando de forma auto-organizada em projetos sociais. 

Fundada em 2013 por Rafael Maretti, Alexandre Pereira, Gustavo Nahas e Flavio Chede, a Base Colaborativa começou em uma casa alugada em conjunto por eles. No início, era um grupo de estudos formado para explorar assuntos específicos. Hoje os cursos da Base servem como uma fonte de renda importante e que sustenta os diversos projetos sociais executados pelos voluntários. A Base também conta com mais de 400 associados, contribuintes mensais que apoiam essa comunidade de agentes de mudança presente em São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Belo Horizonte. 

Presença e conexão

Ao participar de alguma das reuniões da Base Colaborativa, você logo notará uma grande diferença em como as pessoas se apresentam naquele ambiente organizacional. Os encontros geralmente começam com uma “chegância”, momento em que os participantes compartilham como estão se sentindo naquele momento. Não é um tabu falar de emoções e muitas vezes a chegância encerra com uma pequena meditação. Rafael diz: “Queremos as pessoas pelo que elas são, não pelas metas que bateram”.

Trazer o lado pessoal para o trabalho já faz parte da cultura da Base. Nas equipes de trabalho também rolam muitas conversas com o intuito de fortalecer a relação entre as pessoas e tornar o ambiente psicologicamente seguro. “É comum fazermos reuniões na casa das pessoas”, traz Rafael como um exemplo dessa relação pouco convencional. Ao mesmo, Rafael também admite que o aspecto organizacional se perde facilmente. 

A força dos laços que a Base possibilita entre os voluntários é um dos aspectos mais marcantes desta comunidade. Os projetos sociais se propõem a transformar não apenas quem é diretamente impactado por eles, mas também os próprios voluntários. Um exemplo disso é o projeto Amazone-se:

Reprodução basecolaborativa.org

“O projeto nasceu porque alguns amigos fizeram uma viagem de voluntariado visitando as comunidades ribeirinhas. Mais pessoas quiseram ir, e aí começamos a fazer expedições mensais. As expedições levavam saúde, educação e empreendedorismo. Aconteceu, por exemplo, de um grupo identificar uma demanda de uma comunidade de ter um galinheiro para que as crianças tivessem uma alimentação melhor. Então eles fizeram uma vaquinha e na próxima expedição criaram o galinheiro. A Base influenciou juntando as pessoas, com toda a parte administrativa e também tornar o projeto autossustentável.”

 “O grande diferencial da base é atuar com o coração”

 Rafael Maretti

Estrutura e tomada de decisão

Organizar o trabalho de centenas de voluntários poderia ser um esforço considerável em uma corporação tradicional. Mas, ao invés de camadas hierárquicas e uma área de gestão de projetos, as iniciativas na base são totalmente auto-organizadas. Grupos de projeto se formam de forma fluida com base nos interesses dos voluntários. Isso é possível graças a uma reunião regular de projetos. Neste encontro, todos são informados sobre as iniciativas sociais em andamento e os novos voluntários têm a chance de adentrar os grupos que os interessam. Rafael diz: “a responsabilidade da Base é sustentar essa estrutura aberta, inclusiva e colaborativa”. Os grupos de projeto têm autonomia para se organizarem e a Base oferece suporte metodológico para isso, como cursos de Comunicação Não Violenta, Teoria U, Sociocracia, facilitação, Design Thinking e Organização Orgânica. 

Legalmente, a Base é uma associação sem fins lucrativos, e por isso tem um conselho fiscal e consultivo, como exigido por lei. Além dos associados e voluntários, cerca de oito pessoas são remuneradas para manter a “Base Institucional”, o núcleo que dá vida a essa grande comunidade.

Por vezes, os projetos sociais ou cursos realizados pelos grupos de voluntários necessitam de investimentos. Para isso, a Base criou o “Fundo de Projetos”, uma conta que os grupos podem acessar para financiar suas iniciativas, especialmente os projetos sociais, que são puramente filantrópicos. Hoje, as decisões são tomadas de forma compartilhada e por um processo de aconselhamento. “Não é tão formal, acho que precisamos criar mais regras para melhorar isso”, diz Rafael. Os grupos podem decidir, mas devem informar os outros e pedir conselhos (não são votações). Nesse aspecto, a base apresenta algumas características de organizações pluralistas e evolutivas, já que valoriza a inclusão, ainda que os contornos dos processos decisórios não estejam tão bem definidos. 

Quando existem “sobras” (lucro) das atividades realizadas, elas acabam sendo reinvestidas na associação. São os próprios grupos de trabalho de cursos que decidem o que fazer com o dinheiro excedente.

Uma organização em evolução

A Base apresenta diversas características de organizações evolutivas, especialmente o aspecto da integralidade e do propósito evolutivo. O ritual de chegância, o enfoque no autoconhecimento e o olhar humano trazido pelas práticas de gestão reforçam a integralidade. O propósito da Base também é vibrante e reflete-se claramente nas ações: não está apenas no discurso ou escrito na parede do escritório. A Base parece ainda ter desafios no aspecto da autogestão, como mais clareza e definição dos processos decisórios. Ainda assim, é possível observar um movimento nessa direção

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